Bairro do Quilombo

Bairro do Quilombo

Isaura Aparecida de Lima

(acervo Manoel Coutinho)

Situa-se a nordeste do município, de topografia montanhosa, terreno pedregoso e coberto por mato espesso. Possui árvores raras e em extinção como o jequetibá, peroba, jacarandá e figueiras centenárias. Palmeiras centenárias também são encontradas.

É um bairro que liga-se a outros bairros como Paiol Grande, Coimbra, Sertãozinho e Bocaina, e pela TRILHA DOS NEGROS pode-se chegar a Brasópolis, em Minas Gerais.

A população é mestiça, branca e alguns negros, num total de 120 famílias, das quais 40 vivem na vila, em uso comunitário com a igreja, isso quer dizer que possuem o direito de posse mas não de propriedade.

Reduto de artesãos, entre eles Ditinho Joana, internacionalmente conhecido por suas esculturas em madeira.O lazer está no truco, no futebol e outras brincadeiras improvisadas. O folclore é muito rico, cheio de lendas, estórias, mitos, crendices, usos e costumes próprios. Preservam o Canto de Mutirão, Encomendação das Almas e algumas danças extintas.

Todos são católicos, devotos à Imaculada Conceição, padroeira do lugar, cuja festa tradicional ocorre dia 08 e dezembro.

A atual Igreja foi construída pelo Padre Francisco Reale que benzeu o local e colocou a primeira pedra no dia 13 de janeiro de 1905. Foi feita com recursos da própria comunidade e inaugurada em 1910. A imagem da padroeira está em seu interior medindo 25 cm de altura, feita de barro cozido (cerâmica), ao estilo barroco do século XVII, época de sua provável chegada ao Quilombo, trazida pelos negros ou alguns bandeirantes que passou por aqui, rumo às Minas Gerais de Itajubá.

A imagem de São Benedito é do século XIX, esculpida em madeira, trabalhada em ouro sobre as vestes pretas e mede cerca de 40 cm de altura.

A imagem de Nossa Senhora Aparecida, também Imaculada Conceição, é do início do século, em gesso, mede cerca de 50 cm e foi doada pelo senhor Antonio Rodrigues de Paiva, na inauguração da capela em 1910.

Curiosidades

A imagem da Imaculada Conceição do Quilombo na época de seca, era trazida para a cidade, onde iniciava-se uma novena na Igreja Matriz e antes de seu término a chuva chegava.

Por volta de 1960, a última vinda da Imagem da Imaculada Conceição para a cidade, no tempo do padre Pedro, fez a procissão e a novena. No dia seguinte o Padre levou a imagem de volta e celebrou a missa ao amanhecer. Disse que Nossa Senhora em sonho lhe disse que levasse a imagem de volta e que não queria mais sair de sua capela. Para pedir-lhe chuva teria que ir ao Quilombo. E nunca mais voltou a cidade.

Foi o primeiro bairro a ter luz elétrica, produzida por um gerador próprio, construído com recursos da comunidade. Foi extinta com a chegada da energia fornecida pela CESP.

O que é um Quilombo?

Chamava-se Quilombo ao acampamento dos JAGAS, povo antropófago que invadiu o CONGO e ANGOLA no último quartel do século XVI. Habitava no nordeste da áfrica.

Segundo o Rei de Portugal, em resposta recebida pelo Conselho Ultramarino, em 2 de dezembro de 1740, o quilombo era toda habitação de negros fugidos que passassem de cinco, em partes despovoadas.

Dá-se o nome de quilombo ao refúgio de negros foragidos ao qual se juntavam índios, foras-da-lei, marginalizados e pessoas perseguidas pelos poderosos. Formavam aldeias com mais de 100 hab., plantavam e criavam gado para sua própria subsistência. Assaltavam fazendas das tropas e plantações em busca de alimentos, mulheres e novos recrutas. Acolhiam negros libertos que não tinham para onde ir embora esses formavam outros quilombos com brancos e mestiços. Os quilombolas eram ajudados pelos negros dos arraiás que os mantinham informados das investidas dos capitães-do-mato, da vinda de carregamento de alimentos e armas pelos tropeiros.

Formar quilombos é criar roças como subsistência para as tropas bandeirantes, que procuravam ouro nos rios. Plantavam milho, mandioca e batata doce, cujas colheitas são rápidas.

Os quilombos tinham um rei, que governava e quem liderava na fuga. Ele se defendia, não tinha função de ataque.

Características de um Quilombo

Localizavam-se em serras, morros e colinas, de difícil acesso, cercado por matas, rios e riachos,o que garantia aos quilombolas o esconderijo e a alimentação. Tinha um caminho secreto e só uma entrada para as fugas inesperadas.

Sua duração não tinha tempo determinado, mas se durasse muito tempo eram construídas cabanas com fortificações, capela e uma praça para os treinamentos de guerra e a prática dos rituais religiosos.

Os quilombos, em sua maioria, assemelhavam-se ao famoso Quilombo dos Palmares tanto na organização social e militar como física.

Os alimentos e o uso da terra era comunitário. O que era de um era de todos e faziam de tudo um pouco para sobreviver, segundo suas aptidões.

Origem do Bairro do Quilombo de São Bento do Sapucaí

Na época da extração de ouro em Minas Gerais, predominava uma população negra, na proporção de 01 branco para 20 negros. Fugiam do capitão-do-mato e ficavam na mata criando novas aldeias. Em 1746 Gomes Freire de Andrade moveu guerra contra os quilombos e foram todos dizimados.
Segundo as pesquisas da historiadora Isaura (autora desse texto), o quilombo que aqui existiu foi extinto muito antes do povoamento da região, e pode até ter sido usado pelos bandeirantes, inclusive Por Gaspar Vaz da Cunha, o Oyaguara.

Influência negra na história da cidade

Diz a história que em 1811, Salvador Joaquim Pereira, estabelecido na fazenda Sapucay-mirim, na paragem denominada "Guarda velha", construiu uma capela dedicada a São Bento que abrigou a imagem desse santo, esculpida em madeira, por muitos anos.

Por volta de 1822, José Pereira Álvares dono de muitas terras no Alto Vale do Sapucaí, tentou construir uma capela nas margens direita do rio. Nossa Senhora do Rosário seria o oráculo da paróquia (a santa predileta dos negros) e chamou o vigário de Pindamonhangaba, Padre Justino Columbreiro para benzer o local. Mas o Padre José Bento, de Pouso Alegre, impediu isso de acontecer, devido questões antigas entre as Capitanias de MG e SP. Mas a capela foi construída anos mais tarde.

Em 1828, o mesmo José Pereira Álvares doou uma gleba de terras para a construção de uma igreja que serviria de matriz. Por indicação dos escravos, São Bento foi escolhido como padroeiro do lugar, devido à presença de muita cobra por aqui. Construído o templo, foram buscar a imagem que estava na "Guarda Velha", imagem esta que se encontra até hoje na Igreja Matriz.