Vida social em São Bento do Sapucaí

A divisão de terras entre as capitanias de Minas e São Paulo mudou inúmeras vezes. Quando os primeiros fazendeiros fixaram no Grande Vale surgiram muitos conflitos entre as autoridades de Pindamonhangaba e Camanducaia, pela posse das terras. Os paulistas venceram e tomaram posse de seus domínios, prestando obediência a Câmara de Pindamonhangaba.

As duas capitanias entrando em paz, os sapucaienses formaram então uma sociedade totalmente rural, onde os grandes proprietários de terra e criadores representavam a autoridade máxima à qual se subordinavam trabalhadores e escravos.

Em 1828, com a criação da paróquia, deu-se início ao povoado em volta da pequena Igreja matriz de pau-a-pique. Foi elevado á Freguesia em 1832, à Vila em 1858 e,finalmente à cidade em 1876. Nessa época, a população era de 4.272 hab., onde 564 eram escravos. Havia 103 casas.

Grande parte da população rural foi morar na cidade, e assim surgia a população urbana.

Os donos de terras e grandes comerciantes (eram os "homens de Bem"), entre eles eram escolhidos os vereadores da Câmara Municipal.

Em 1887, a população cresceu para 17.713 habitantes: sendo 13.099 na paróquia de São Bento do Sapucaí e 4.074 na de Santo Antonio do Pinhal. O comércio apresentava 18 lojas de fazendas, armarinhos e ferragens; 20 armazéns de secos e molhados; 2 padarias, 2 olarias, 2 farmácias, 2 selarias, 3 funilarias, 3 lojas de barbeiros, 1 casa de bilhares, 5 hotéis, diversos engenhos de cana-de-açúcar e outros estabelecimentos não especificados.

Funcionavam 6 escolas públicas para o sexo masculino e 2 para o feminino, num total de 228 alunos, (representando 1% da população total, levando a um alto índice de analfabetismo).

Nos bailes dançava-se ao som de sanfonas e rabecas pelos salões do Paço Municipal. Recitais com moças e rapazes em casarões e sobrados eram freqüentes e reuniam a nata da sociedade local. E na falta de outros divertimentos, os saraus e as festas religiosas tornavam-se um acontecimento social, ocasião em que todos procuravam estar impecavelmente vestidos.

A sociedade rural era composta por escravos na maioria e só vinham à cidade nas festas religiosas, como a do Divino e a do Padroeiro.

Enquanto os sambentistas viviam sua vidinha, a Igreja matriz ganhou sua torre e os políticos brigavam pelo poder.

Quando veio a República, a comemoração teve direito até foguetório, tendo à frente o Coronel Francisco das Chagas E steves, o chefe do Partido Republicano, "os Botões", gritando vivas a Deodoro, na porta das casas das autoridades que, uma a uma, foram destituídas de seus cargos. Os depostos formavam o Partido Liberal, conservador, favoráveis ao Império, eram os "jagunços". A rivalidade entre os jagunços e os botões foi até o fim do coronelismo.

Mas apesar disso a vida na pacata cidade continuou transcorrendo da mesma forma, com as meninas sendo educadas pra casar, aprendendo a bordar, cozinhar, cuidar da casa e os meninos a seguirem uma carreira como a de advogado que na época era moda. O pai escolhia o marido para a filha, que tinha que ter a família de mesmo nível que a dele.

Os cargos políticos e públicos eram hereditários, os que vinham de fora ocupavam cargos de confiança do governo, como juízes, promotores, delegados e coletores.

Mas também existiam os coronéis que deram nomes a muitas ruas da cidade. Eles surgiram no Brasil em 1831 a partir da criação da Guarda Nacional, pelo Regente Feijó. Era uma corporação da polícia que recrutava soldados para o Exército Nacional. Teve papel político e partidário no meio rural e era subordinada ao Ministério da Justiça.

Ser coronel era uma ambição para os senhores de terra, grandes fazendeiros e comerciantes que, depois de nomeados, compravam a patente para exercer a função de chefes. Eram cercados por capangas e se intrometiam em assuntos até na igreja. Dominavam juízes e delegados em relação à aplicação da Lei. O lema das delegacias era: "aos amigos fazemos justiça; aos inimigos aplicamos a lei".

O coronelismo ou "compromisso coronelista" chegou até 1930. Ele existia entre os chefes políticos e o governo. O coronel mandava na cidade como queria.

Em São Bento, o poder sempre esteve nas mãos dos coronéis, disputado também pelos jagunços e Botões, (Major Monteiro de Carvalho, Cândido José da Silva, Cândido Ribeiro da Luz) e botões (Silvestre Porto e José de Freitas Guimarães).

Nas eleições havia muito gasto com a compra de voto, e muitos insultos entre os candidatos. O nervosismo era tano que o Major Monteiro depois de perder numa eleição teve um derrame e acabou falecendo.

Dentro da Câmara havia uma briga entre os coronéis pelo poder na Casa legislativa. Houve uma situação que inconformado com a perda da Presidência da Câmara formou-se outra Câmara em paralelo, mas depois a mais forte prevaleceu.

O Coronel Manuel Marcondes da Silva ficou mais de 30 anos na Presidência da Câmara. Muito influente foi eleito várias vezes, e mandava e desmandava na cidade.

Os coronéis moravam nos casarões e sobrados mais vistos da cidade, era quem compunham a parte intelectual e cultural da cidade. Essa elite social ocupava lugar de destaque na igreja, da qual era grande doadora de bens imóveis para a paróquia. Ficavam em destaque nas procissões e atos religiosos. Se morto tinha direito a missa de corpo presente e o mesmo direito era estendido aos seus familiares.

Os crimes mais comuns eram de defloramento e sedução que era reparado com o casamento ou ia para a cadeia. Havia até quem vingasse a honra pelo sangue, que era o crime por homicídio. Na zona rural a violência era ainda maior, com encomendas de assassinatos, brigas entre lavradores com ferimentos e mortes e questões de divisa entre proprietários de terra. O bairro do Rio Preto era o mais violento comO prédio do Fórum antigo foi construído no início do século XX e possuía celas com grades para acomodar presos quando a cadeia ficava inundada pelas enchentes que eram muito comuns na época. A cadeia não possuía rede de esgotos, nem banheiros. Os presos usavam urinóis e as fezes eram jogadas num barril removido a cada três dias.

A cidade era iluminada graças aos lampiões a querosene. Para quem danificasse os lampiões e postes a multa era pesada e havia a obrigação de reparar o dano causado.

Os primeiros passos para a implantação da Luz Elétrica na cidade foram dados em Fevereiro de 1911, pelo então Presidente da Câmara, Sr. Tenente – coronel Manuel Marcondes da Silva, com o Projeto de Lei autorizado pelo Sr. Prefeito.

No dia 24 de julho de 1912 foi assinado o contrato com a Companhia Mercantil e Industrial Casa Vivaldi, do Rio de janeiro. E no dia 19 de setembro de 1913 foi solenemente instalada a luz elétrica em São Bento do Sapucaí, em meio a festa, discursos e, como sempre, foguetório e banda de música.

A vida social começa a mudar na cidade, as roupas femininas sofrem influencia da moda francesa com vestidos mais justos. Os homens passam a usar calça de brim, paletós sacos, chapéus de castor ou feltro, gravatas de cetim, botinas de verniz.

A parir de 1912, reestrutura-se a Guarda nacional e é criado o Tiro de Guerra 535, sob a presidência do Tenente-coronel Luiz Gonzaga Raposo e tendo por comandante o Tenente Joaquim Cortez Rennó Ferreira. São Bento sediava o 8º regimento de Cavalaria.

Os padres carmelitas ajudaram na obra da Igreja Matriz, trazendo pra cá arquitetos e pintores como Francisco D Arace e Luiz Teixeira.

Cria-se o Externato São Luiz, e várias escolas na zona rural e o ensino torna-se obrigatório para crianças dos 7 aos 12 anos, conforme lei municipal promulgada em 1917. Criam-se cursos para alfabetização de adultos no Clube 13 de maio e no Gabinete de leitura.

Com a vinda do cinema a cidade alcança seu auge. Além dos filmes no local havia apresentação de teatro, saraus lítero-musicais e soirées dançantes. Antes de assistirem ao filme os telespectadores ouviam a banda de música Coronel Ribeiro da Luz e da orquestra de José Franco e do senhor José de Almeida Barros. O primeiro cinema de São Bento foi o CINE RECREIO, ano de 1912 com capacidade para 500 pessoas, depois passou a ser chamado de CINEMA IRIS, e em 1919 retorna para o primeiro nome.